Empreendedorismo Social: é possível fazer o bem e ganhar dinheiro?

 

O empreendedorismo social é um novo modelo de negócios que vem crescendo tanto no Brasil, como no mundo. Tendo como um de seus objetivos preencher a grande lacuna de oportunidades que não são de interesse do setor privado ou não conseguem ser executadas pelo setor público – Roger Martin, autor e pensador. Ao contrário das organizações privadas – que priorizam o lucro financeiro – e das ONG’s – que priorizam a caridade – esse novo modelo pertence ao setor 2,5 (dois e meio), reunindo um pouco dos dois mundos e gerando benefícios para ambos os lados. Para Muhammad Yunus, precursor do modelo em Bangladesh e Nobel da Paz, “o objetivo dos negócios sociais é a redução da pobreza ou mais problemas (como educação, saúde, acesso à tecnologia e meio ambiente) que ameaçam as pessoas e a sociedade, mas o modelo também deve ser economicamente e financeiramente sustentável”.

O crescente interesse dos empreendedores por esse tema faz todo sentido, pois reflete a busca das pessoas por propósito e pela realização também no trabalho, equilibrando a vontade de fazer a diferença com o lucro financeiro. “Existe uma geração que não se contenta mais em só ganhar dinheiro”, afirma Peter Holbrook, diretor da Social Enterprise UK. Além disso, o setor se mostra cada dia mais estruturado no Brasil, com mais aceleradoras e mais recursos disponíveis. Falar é fácil, fazer, é outra história. Por isso, em 2016, conversamos com dois empreendedores sociais, para saber um pouco mais sobre como é trabalhar dessa forma.

O primeiro deles é Daniel Mattos, um dos fundadores da Smile Flame, de Porto Alegre, empresa que “nasceu para criar projetos que misturam ações do bem com referências legais”. Seus projetos são baseadas em três pilares: disrupção, positividade e geração de impacto positivo na sociedade. O segundo, é Lucas Rodrigues, fundador da marca Hevp Clothing, de Maringá, empresa que surgiu a partir do “sonho de dois amigos de criar uma marca de roupas que impactasse as pessoas de alguma forma positiva”. Iniciaram a partir do modelo “One for One”, vendendo camisetas e doando uniformes e refeições. E atuam hoje com a profissionalização de mulheres carentes e produção local, que contribui para a melhora das regiões onde a marca se faz presente. Os insights das entrevistas foram muitos, a seguir compartilhamos os mais legais com vocês.

O conhecimento sobre Empreendedorismo Social ainda é baixo

Os dois empreendedores enxergam que o entendimento de negócios sociais vem sendo ampliado entre as pessoas, como exemplifica Daniel: “Acho que mais empresas apareceram, mais oportunidades e o mercado já está mais rico e consolidado, ao ponto de não só empresas, mas de clientes e consumidores finais compreenderem o que é empreendedorismo social”. Entretanto, ainda existem algumas resistências, como a compreensão de que um negócio pode fazer o bem e mesmo assim precisa se sustentar financeiramente e gerar lucro. “As pessoas falavam: “tá legal, mas como tu vai ganhar dinheiro com isso? Legal, mas qual que vai ser teu trabalho? Tá, mas é uma ONG”? – Daniel. “É que o conceito de negócios sociais ainda é muito pouco conhecido e difundido, muita gente ainda acha que a Hevp é um projeto. Então por mais que tenha engajamento, das pessoas querendo fazer o bem, elas não entendem o que é o caminho da Hevp, elas não participam dessa necessidade de vender, de se ter um modelo com receita, é um pouco complicado” – Lucas.

O Propósito Social deve nascer com a empresa

Muitas pessoas ainda acham que empresas sociais, nascem como todas as outras e depois simplesmente começam a fazer projetos e eventos sociais, mas não é assim que acontece. O propósito social deve ser a razão de existir da empresa em primeiro lugar, posteriormente expandindo esse DNA para a sua cultura interna, ações e comunicação. “Nossos valores estão muito conectado com a nossa essência e propósito, a gente quer construir esse mundo através da felicidade, através de um modo alegre, divertido e do bem. E isso se traduz, desde o início, nas ações da Smile Flame”.  “Nosso propósito é impacto social positivo na base da pirâmide. A Hevp sempre teve um foco assim e isso vem dos sócios” – Lucas.

oxfam-we-can-change-the-world1Fonte: VisualHunt

Só dizer que você faz o bem não vai te fazer vender mais

Com o crescimento dos negócios sociais, muitos acham que adotar essa bandeira, sem realmente acreditar nela, vai ser motivo de aumento de vendas, mas não é bem assim. “Muita gente acha que vai botar isso e vai vender horrores, mas não é assim. Eu acredito muito que se a Hevp não tivesse o lado social hoje, a marca ainda seria muito legal, a galera gosta muito dos produtos”. O design e qualidade dos produtos e serviços são fundamentais para a venda e a parte social não se mantém sozinha, demandando investimentos que poderiam ser usados em outras áreas, se fosse uma empresa comum. “Sem a parte social, a gente teria mais margem para vender, para botar nas lojas, mais dinheiro, poderia estar investindo mais em marketing, ampliando a empresa. Então as pessoas não enxergam que você cria mais engajamento com as pessoas sim; só que se você pensar em colocar a parte social só para vender mais, vai dar tudo errado. Tem que fazer sentido! Para mim e para o Juriel (sócio da Hevp) faz sentido! – Lucas. Resumindo, só faz sentido ter uma empresa social se você realmente acredita naquela causa! Greenwashing não vale!

A Responsabilidade de se ter um Negócio Social é bem maior

Com relação às dificuldades enfrentadas por essas empresas sociais, foi citada a necessidade fundamental de manter todas as ações da empresa alinhadas com o seu propósito, para que ele não perca o sentido. A exigência por transparência nesse tipo de negócio é altíssima. Além disso, as dificuldades financeiras enfrentadas são desafiadoras, pois além de vender e manter o negócio e sua estrutura como qualquer outra empresa, ainda é preciso sustentar a parte social. “Então, tem um lado bom do empreendedorismo social, mas tem uma responsabilidade enorme. Tu não pode olhar o mundo como uma empresa do segundo setor, porque, definitivamente tu não é” – Daniel.

A Diferença é o Brilho nos Olhos

Entre pontos positivos e negativos desse modelo de negócios, se destaca a alegria desses empreendedores de estarem fazendo a diferença no mundo! “Fico muito feliz, sou um entusiasta ao ponto de falar para qualquer pessoa, seguir esse caminho que faz muito sentido”, diz Daniel. Ele ainda acrescenta: “Se todas as empresas do mundo tivessem essa lógica 2,5, meu Deus, isso tudo ia crescer muito! Se todo o movimento que a gente faz, a energia que a gente investe fosse direcionada para o impacto positivo, a vida seria incrível”.

Os insights foram tantos, que quase não consegui concluir esse texto, pois queria incluir todos eles! Você também se interessa por esse assunto? Quer saber mais sobre alguma marca social? Comente aqui!

FONTE ENTREVISTAS: as entrevistas com Daniel Mattos e Lucas Rodrigues foram realizadas em 2016 para Trabalho de Conclusão: MARCAS COM PROPÓSITO: gerando engajamento e conexão com as pessoas: um estudo múltiplo de caso sobre as empresas Smile Flame e Hevp,  do Curso do MBA Ciências do Consumo. Autora: Greice Piacini.
FEATURED IMAGE: VISUALHUNT
GreicePiacini

Greice Piacini
Master em Branding e Comunicação 
e em Ciências do Consumo.
Consultora de Marcas.

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