Inspirar novas realidades

Conheçam a Laura Barcelos, empreendedora e co-criadora do Travessias e do Leia Uma Mulher, alguns de seus projetos de impacto social.

Eu conheço a Laura desde pequena, mas há um ano atrás a reencontrei em um curso que eu fiz sobre empreendedorismo criativo em uma escola de Porto Alegre. Fiquei impressionada com a capacidade que ela tem em transformar realidades e não se conformar com algumas verdades que encontramos por aí. Realizamos uma entrevista com ela para contar sobre o Travessias e o Leia uma Mulher, projetos recentes conduzidos por ela e que visam o impacto social no nosso meio de convívio. Confira abaixo:

A – Laura, seja bem vinda ao Attached. Conta pra gente um pouco sobre você e seus últimos projetos?
L – Sou apaixonada por realizar novos projetos e recentemente descobri que tenho uma facilidade em tirar as coisas do papel, gosto de transformar ideias em realidade. Eu não dava tanta atenção para isso antes,  mas hoje vejo que para a maioria das pessoas não é tão simples assim fazer isso, é impressionante o quanto a zona de conforto nos impede de colocar em prática nossos projetos.

As experiências que eu tive com a AIESEC e o Travessias foram como uma escola pra mim e aprendi o quanto somos capazes de começar movimentos de mudança. Cada vez mais tenho a vontade de incentivar as outras pessoas a criarem impacto real com seus projetos e enxergar o mundo de outro ângulo. Mas tudo isso ainda é recente, as coisas vão acontecendo aos poucos. Cursei Letras na UFRGS e trabalhei por anos como professora de francês, entre outras coisas. Hoje trabalho com empreendedorismo, gestão de projetos colaborativos. Às vezes a gente pensa que essas mudanças que fazemos não vão se conectar, mas no fim, tudo é bagagem que a gente leva para cada nova experiência.

A partir do momento que descobri que adoro criar projetos, fui abrindo meu leque de visão para a minha carreira. Fazendo alguns cursos esse ano descobri a gestão criativa e colaborativa de projetos e tudo fez muito sentido. Ao mesmo tempo, vi que estar com pessoas me faz muito bem, então passei a estudar sobre facilitação.

Hoje digo que sou sonhadora e facilitadora de futuros inovadores. Isso está muito relacionado ao meu trabalho na Pulsar. A gente é uma rede de facilitadores de vivências e projetos colaborativos que busca atuar com as empresas, criando novas consciências para o ambiente de trabalho. É bem gratificante e nós conseguimos ver em muitos casos uma mudança na prática, despertando o início de um desenvolvimento nas equipes e nas  pessoas.

A- Como surgiu o Travessias?
L – O Travessias surgiu em 2016 a partir da nossa inquietude ao ver imigrantes em vulnerabilidade social, sem oportunidades para melhorar sua qualidade de vida. Como na época eu era professora de francês, sempre me comuniquei com eles porque alguns falam essa mesma língua. Eles relatavam que queriam encontrar trabalho aqui mas que para isso precisavam primeiro falar português. Chegou um dia que não conseguia mais olhar para essa questão e não fazer nada, eu sentia que eu podia tentar ajudar a melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. Foi como um “chamado” e ficou na minha cabeça por alguns dias ou semanas. Ainda demorou algum tempo para agir mesmo, eu brinco que a zona de conforto é um buraco negro que nos puxa e não nos deixa tomar atitudes. 

06-trav

Então, em busca de encontrar alguma solução, conversei com algumas pessoas e encontrei um grupo que estava disposto a se unir para fazer algo. Nós nos encontramos, organizamos aulas de português e já nos primeiros dias vieram muitos imigrantes. Passadas algumas semanas, foram surgindo novas demandas, e fomos nos adaptando e agindo conforme as necessidades.

Então decidimos que deveríamos tornar a iniciativa um projeto social. Assim, demos o nome de Travessias que está relacionado a essas jornadas de busca que os imigrantes vivem, fazendo alusão também a línguas e culturas.

Começamos a ver o impacto e o Travessias ganhou cada vez mais força. No primeiro encontro eram quinze imigrantes, no segundo foi aumentando e alguns meses depois expandimos as aulas pra outra zona da cidade, tendo ainda mais participantes.

A ideia é que os imigrantes tenham total autonomia, e que, depois de algum tempo, eles não precisem mais do Travessias para sua integração à vida nova no país.

Setting the page on fire with some hard work

Infelizmente, ainda são raras as políticas públicas que assistam imigrantes aqui no Brasil ou que apoiem iniciativas sociais e sentimos essa dificuldade em alguns momentos.

Mesmo assim, em 2017 o projeto cresceu e criamos também oficinas para os imigrantes, com foco em conhecimento mais técnico específico para o mercado de trabalho. Ajudamos eles a montarem seus currículos e a se prepararem para as entrevistas de emprego.

Também ano passado, tivemos um apoio incrível da Semente Negócios, durante o programa AGIR, e da Perestroika no curso de Empreendedorismo criativo. Esse período foi essencial pra gente repensar em como queríamos estruturar o Travessias.

Agora estamos revendo nossa atuação com o projeto, o que precisa melhorar e o que faremos com ele esse ano. Queremos que siga impactando mais vidas, mas também que seja sustentável para todos os envolvidos da equipe.

iStock-533610081


A – Você poderia nos contar mais sobre o seu novo projeto, o Leia Uma Mulher?
L – O Leia uma Mulher é um projeto bem diferente dos outros que já fiz, e partiu do incômodo de viver em uma cidade que não acolhe nós mulheres. 

O assédio ainda é muito presente, convivemos com isso diariamente, nessas doses homeopáticas de violência seja no transporte público, a pé, de bicicleta. As cidades são ambientes hostis para nós. E para muitas a violência é bem mais brutal. Literalmente vivemos com medo de sair na rua, e não só à noite e não só por causa de assaltos. Todo tempo nos controlamos sobre o que vestir, que ônibus pegar, por quais ruas caminhar, se vamos mesmo sozinhas, convivendo com esse pavor da violência sexual. Quanto mais projetos tivermos nesse sentido (como o incrível Cidades Seguras para Mulheres), mais perto estaremos da mudança.

iStock-830321448

Outro ponto é a desvalorização da mulher no mercado de trabalho, hoje ainda recebemos um salário de 20 a 30% menor do que os homens. A falta de reconhecimento de profissionais mulheres é visível em diversas áreas; somos menos convidadas a palestrar em eventos, não estamos tão presentes em programas de discussão política ou econômica na televisão, mesmo o mercado editorial é desigual e se publicam mais livros de autores homens do que de mulheres.

O Leia uma Mulher traz o protagonismo feminino para as ruas. Coletei uma série de frases de mulheres escritoras, filósofas, cientistas, artistas e criei alguns lambes para espalhar por Porto Alegre. A ideia é que as mulheres se sintam representadas vendo as palavras de outras mulheres nos muros e postes da cidade – quem mais pode me entender tão bem e me acolher senão outra mulher? A intenção é formar uma conexão entre todas nós, criando cumplicidade, presença e representatividade, contribuindo para que a cidade se torne um ambiente mais acolhedor e igual.

Para o futuro, temos mil ideias para seguir atuando com o projeto. Queremos fazer entrevistas com escritoras e personalidades e fazer com que o projeto chegue a outras cidades do Brasil.

I'm young and ready for success

E outros sonhos estão por trás da ideia do Leia uma Mulher, como o Festival de Liderança Feminina que queremos realizar esse ano em Porto Alegre para incentivar também o protagonismo feminino principalmente no ambiente de trabalho.

A – Que dica você gostaria de dar para quem quer empreender e lidar com impacto social?
L – Uma primeira dica seria: não esconda ou guarde suas ideias só para si! No momento em que você leva o assunto e conversa com os outros, fica muito mais fácil e acessível a realização do projeto. É preciso quebrar o paradigma de que se você tem uma ideia muito boa não pode compartilhar porque alguém poderia roubá-la.

Todos podem contribuir com algo aqui ou lá, passar um feedback, e te dar informações úteis que podem transformar a sua ideia em algo melhor ainda. Uma cabeça nunca pensa melhor do que duas, certo?

A gente perde um potencial imenso não compartilhando com as outras pessoas e perde os principais inputs que elas nos dariam, tentando “economizar” um tempo de execução de algo que talvez não seja a melhor ideia ainda.

Idea concept

Outra dica muito simples é: começar. Muita gente com quem eu converso quer ter a ideia perfeita de primeira e sair causando o maior impacto possível já no dia de lançamento (confesso que eu também penso nisso várias vezes). Não é assim que acontece. E no momento que se dá o primeiro passo, a perspectiva muda, a gente cresce, aprende, e a ideia evolui. O aprendizado é mãe da evolução.

Então comece com passos pequenos. Escrever sobre o projeto, pensar em público-alvo e no formato já abre a cabeça pra milhões de possibilidades.

Depois disso e de conversar com as pessoas sobre, é hora de ir pra rua mesmo, sabendo que somos adaptáveis, que com os erros vamos lapidando a ideia.

Ver o seu projeto acontecendo é muito empolgante e as pessoas te darem retorno disso é mais incrível ainda. É recompensador provocar alguma mudança positiva e ver uma pequena transformação no mundo, a gente se sente viva e potente!

Those who work hard, win

Não tem por que ter medo de colocar no mundo, o único risco que se corre é se apaixonar pelo projeto ou querer inventar vários outros!

————-

Gostou a entrevista e, assim como nós, ficou inspirado com os projetos da Laura?
A grande novidade é que ela está iniciando a sua coluna no Attached Creative! ❤ A partir de agora poderemos acompanhar a sua trajetória por meio de seus textos e ensinamentos empreendedores. Vem com a gente!

Seja bem-vinda, Laura!

Já conhece nosso Instagram? Aproveite para acompanhar as nossas redes!

PatriciaDambros

Patrícia D’Ambros
Master em Design Visual,
Especialista em Criatividade para novos Negócios.
Gestora de Processos criativos.

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s